POR QUE ENCENAR BARTLEBY?
Sem qualquer ação dramática, novela de Herman
Melville não vinga no palco
DUDA
MAMBERTI empresta certa vida a seu personagem, enquanto Gustavo Falcão, como o
resto do elenco, fica preso à falta de interesse do texto
‘Bartleby, o escriturário’
Teatro
Laura Alvim
Barbara
Heliodora
Há
duas tendências fortes do teatro carioca que se manifestam no espetáculo em
cena às terças e quartas-feiras no Teatro Laura Alvim:
a queda pela adaptação da obra literária, em lugar da apresentação de obras
dramáticas, e a não informação a respeito de distribuição do elenco, que afinal
era a razão principal do programa. O texto de “Bartleby,
o escriturário” é de uma novela de Herman Melville, e é perfeitamente possível que, enquanto
literária, a obra se torne fascinante pela habilidade do autor em manipular as
palavras, criar tensões, mistérios, riquezas estilísticas e o mais; mas o fato
é que Melville não tinha qualquer intenção de ver sua
narrativa em um palco. Não só ela é uma obra literária, como uma narrativa de
algo já passado, acabado e, infelizmente, para o palco a história de Bartleby não apresenta qualquer interesse maior.
Direção
repetitiva
Fica
afirmado no programa que a obra tem causado grandes estudos e interpretações em
tempos recentes, mas o texto tal como visto em cena não sugere de forma alguma
que tenha qualquer mínima influência sobre a obra de Beckett, cujo mistério é
sempre prenhe de ação latente, quando ela não é manifesta. A adaptação de João
Fonseca faz com que os outros escriturários do escritório de advocacia tenham
algumas falas, porém o fato de eles terem essas pequenas falas não lhes dá
relevância, não estabelece um clima tenso ou ao menos irritado pela não ação do
escriturário do título. Na verdade, após os minutos iniciais fica tudo
tautológico, já que não existe nada além da premissa inicial de Bartleby “preferir” não obedecer às ordens do patrão.
A
encenação é simples: um cenário de linha expressionista (?), de Doris Rollemberg; figurinos
disciplinados de fim do século XIX, de Mauro Leite; luz caprichada, de Renato
Machado; música discreta, de Marcelo Alonso Neves. A direção de João Batista
fica inevitavelmente presa à mesmice do texto e é, por isso mesmo, repetitiva,
mesmo que busque emprestar um pouco de ação por movimentos por vezes
desnecessários.
A
segunda tendência não revela quem é quem no elenco, e infelizmente só
conhecíamos Duda Mamberti, que consegue emprestar
certa vida ao advogado. Gustavo Falcão, Claudio Gabriel, Eduardo Rieche e Rafael Leal completam o quadro, todos presos à
total falta de interesse que nos oferece o texto de Melville.
No programa, há referência aos eternos mistérios ligando grandes romancistas;
no caso em pauta o mistério é descobrir por que alguém haveria de se lembrar de
botar Bartleby, a essência da não ação, em um palco.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Segundo
Caderno Tamanho: 482 palavras
Edição: 1 Página: 4
Coluna: Seção:
Caderno: Segundo
Caderno
© 2001 Todos os
direitos reservados à Agência O Globo