CARRO DESTRUÍDO POR BOMBA NO IRAQUE VIRA PEÇA DE MUSEU
Imperial War Museum
adquire obra de artista londrino
RETORCIDO e enferrujado, o metal foi alçado a obra de arte por Jeremy Deller,
que levou o Turner Prize em 2004
Fernando
Duarte
Imperial
War Museum tem um acervo
impressionante por uma série de motivos, do gigantesco míssil V2 montado em seu
saguão principal à exposição permanente sobre o Holocausto, passando também por
tanques, aviões e uma bomba atômica semelhante à que caiu sobre Hiroshima.
Sendo assim, o anúncio de que a mais nova aquisição do museu é uma pilha de
metal retorcido e enferrujado poderia causar estranheza, não fosse o simbolismo
embutido: trata-se de um dos vestígios de um dos maiores atentados contra a
população civil do Iraque.
Mais
especificamente um carro atingido pelo atentado suicida que em março de 2007
matou 38 pessoas no histórico Al-Mutanabbi, mercado
de livros a céu aberto de Bagdá e tido como o coração intelectual da capital
iraquiana. Teria tudo para ser apenas mais um ataque do extremismo islâmico no
país, não fosse o viés cultural que tanto chocou o artista londrino Jeremy Deller, que usou as ferragens como a principal peça de uma
exposição multimídia sobre a invasão do Iraque para o New
Museum, em Nova York, e que ainda percorreu outras
cidades dos EUA.
—
Sempre foi muito difícil vermos de perto algo diretamente afetado pela invasão
do Iraque e foi interessante mostrar o que sobrou desse carro para o público
americano. E agora será vez do britânico — explica Deller,
numa óbvia alusão à participação do Reino Unido na invasão, ainda que contra a
vontade popular, diferentemente dos EUA.
O
Imperial War Museum vê na
peça também uma aquisição ideal para abordar o tema das baixas civis, que ao
longo do século XX deixaram de ser minoria para se transformar na maioria
esmagadora de conflitos militares — 90%, segundo estatísticas oficiais. O metal
retorcido, que nos EUA foi exibido com uma simples placa informando motivo,
local e data da destruição, servirá também como pano de fundo para uma série de
debates sobre o Iraque.
Deller,
de 44 anos, é conhecido no meio artístico pelas incursões sui
generis. Em 2004, recebeu o Turner Prize, o maior prêmio de arte britânico, por conta de um
documentário sobre Crawford, a cidade natal do ex-presidente americano George
W. Bush. O londrino não foge de polêmicas, o que torna bastante suspeito o fato
de o dia 11 de setembro ter sido reservado para que Deller
participe de uma sessão pública sobre arte e guerra no IWM.
Já
o carro ficará em exibição até março de 2011, quando será levado para a filial
do Imperial War Museum em
Manchester.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Segundo
Caderno Tamanho: 466 palavras
Edição: 1 Página: 10
Coluna: Seção:
Caderno: Segundo
Caderno
© 2001 Todos os
direitos reservados à Agência O Globo