TODOS OS SONS NA TERRA DO FREVO
Festival Mimo leva jazz tradicional e som contemporâneo às ladeiras
de Olinda
OS FRANCESES do Selmer #607 sobem a escadaria do
Grêmio Recreativo Preto Velho; à direita, McCoy Tyner e a melancia, e Mario
Canonge e o papaia
LU ARAÚJO, criadora da Mimo, na Igreja da Sé
REJANE ZILLES: cinema no telão da rua
Mais
de 500 instrumentistas participaram da Mostra Internacional de Música em
Olinda, a Mimo, idealizada pela produtora Lu Araújo. O projeto, que termina
hoje, levou 37 concertos gratuitos a 17 igrejas. “Os estrangeiros ficam loucos
com Olinda, todos querem voltar”, contava Lu. E ela, que este ano estendeu o
festival para Recife e João Pessoa, ainda pensa em esticar um braço para
Fernando de Noronha.
Ciceroneados
pela produtora brasileira Regina Del Papa, os franceses do sexteto Selmer #607,
jovens que fizeram o Brasil descobrir o jazz manouche à la Django Reinhardt,
eram exemplo de interação com a cidade. Assim que chegaram, trataram de arrumar
um campo para jogar petanque — diversão francesa que se joga entre goles de
pastis, à base de anis — e caíram no forró pé-de-serra.
“Nossa,
como dançam bem!”, observava um dos músidos do Selmer, o violonista David
Gastine, em meio ao bate-coxa no Ximxim da Baiana. Ele destacava ainda a
gentileza do povo de Olinda e a beleza das mulheres brasileiras. Quem ficou na
mesma pousada do Selmer pôde assistir a vários showzinhos particulares dos
meninos, que tocavam, charmosamente, com cigarrinho no canto da boca.
O
pianista da Martinica Mario Canonge, cuja apresentação, na Igreja da Sé, regada
à mistura de sons caribenhos, foi um dos pontos altos do evento, com ele
convocando o público a fazer coreografia. Nas horas vagas o músico aproveitou a
doçura do mamão papaia.
“Na
Martinica também tem, mas não é tão saboroso como aqui”, reparava Canonge,
tirando o caroço de um dos pedaços antes de meter o bocão. Melancia foi a opção
do pianista americano McCoy Tyner, de 72 anos.
Elegantíssimo
na postura esguia e de terno e gravata impecáveis, Tyner brincava com a
melancia embaixo da placa pendurada numa mangueira do jardim do hotel, onde se
lia “cuidado, frutas”.
O
pianista, lenda do jazz, mostrou à plateia por que ganhou cinco Grammys,
desfilando repertório próprio, além de composições de Duke Ellington e John
Coltrane. “Faço música para deixar as pessoas felizes”, dizia. “Para falar de
amor e você lembrar do seu namorado”. Gary Bartz, que tocou com Miles Davis,
participou.
Tom
Zé causou com seu show “Pirulito da Ciência”, na Praça do Carmo. “Estou dando
folga para os seguranças do palco”, gritou ele, antes de se jogar no colo da
multidão que ocupava o gramado. O povo abraçou e, em seguida, o devolveu,
gentilmente, ao palco.
A
harpista Cristina Braga e Dado Villa-Lobos fizeram dueto em “Por enquanto” e
“Índios”, do Legião Urbana. Egberto Gismonti e Wagner Tiso foram outros
destaques nacionais.
Se
a direção artística do evento, que teve patrocínio do BNDES e do Ministério da
Cultura, levou a assinatura de André Oliveira, a cineasta Rejane Zilles
comandou a programação de cinema. Foram 28 filmes. O produtor Plínio Profeta
falou sobre trilha sonora em debate.