TOQUE DE MAESTRIA
Série de dez CDs clássicos apresenta repertório amplo em boas
gravações
O VIOLINISTA Gidon Kremer brilha em Schumann
O REGENTE Daniel Barenboim: Strauss com furor
‘Série Maestro’ Vários artistas
Eduardo
Fradkin
bras
famosíssimas como “As quatro estações” de Vivaldi e outras bem menos
conhecidas, como as “Impressões de infância” de Enescu, estão em dez CDs de uma
série intitulada “Maestro”, que a gravadora Warner trouxe para o mercado
brasileiro. Lá fora, essa coleção conta com 62 títulos lançados. Mas, para o
combalido cenário clássico nacional, dez discos já são uma extravagância. A
seleção foi muito bem feita, trazendo obras de períodos diferentes e com
formações variadas, sendo a maioria orquestral. O melhor de tudo é que a
qualidade do material é excelente, e o preço de cada CD é R$27,50.
Um
bom exemplo dessa qualidade é justamente “As quatro estações”. A interpretação
é do regente Ton Koopman com a Amsterdam Baroque Orchestra, tendo à frente o
violinista Andrew Manze. No lugar de uma pesada orquestra romântica, temos um
grupo mais reduzido de músicos, usando instrumentos de época, e tocando com
grande energia, coesão e atenção aos detalhes. Alguns fraseados são moldados de
forma inusitada, imprimindo a personalidade dos artistas. Além de reger,
Koopman cria ricas ornamentações no cravo.
A
música moderna encontra espaço num CD do violinista Gidon Kremer que traz a
obra de Enescu, uma peça curta de Plakidis e as sonatas nº 2 para violino e
piano de Schulhoff e de Bartók. Kremer é um virtuose como poucos em atividade e
defende com paixão esse repertório. As obras trazem ecos do século XIX (no qual
nasceram Bartók, Schulhoff e Enescu) e harmonias mais arrojadas do começo do
século XX. Quem tiver o mínimo interesse nesse tipo de música deve dar uma
chance a este CD.
Kremer
reaparece tocando o concerto para violino de Schumann em outro disco, onde
também se encontra o concerto para piano desse compositor nas mãos da argentina
Martha Argerich. O regente é o austríaco Nikolaus Harnoncourt, um dos líderes
do movimento de resgate de práticas ancestrais de interpretação de música
barroca. As performances foram gravadas ao vivo e mostram Martha e Kremer com
sua agilidade habitual e bem integrados com a orquestra (Chamber Orchestra of
Europe), embora falte um tantinho de transparência ao som.
A
mesma reserva vale para o CD que contém a 6ª sinfonia de Beethoven e as suas
aberturas “Leonore nº
O
regente Daniel Barenboim é o astro de quatro CDs da série. Os melhores são, sem
dúvida, o que tem “Uma vida de herói” e “Till Eulenspiegel”, de Richard
Strauss, e o que traz a “Sinfonia Dante” de Liszt. No primeiro, Barenboim
lidera uma boa performance da Sinfônica de Chicago, com todo o furor que a obra
exige. No segundo, rege a Filarmônica de Berlim e tira belos coloridos da ótima
orquestra.
Entre
os dez CDs da série “Maestro”, o único que deixa a desejar é o que tem os três
concertos para piano de Tchaikovsky, tocados por Elisabeth Leonskaja e regidos
de forma burocraticamente correta por Kurt Masur. O problema, contudo, não é
ele. A pianista tem óbvias limitações técnicas, que ficam claras já quando
encara a primeira torrente de notas descendentes (após os acordes iniciais) e
engole boa parte delas. Melhor ficar com os dedos de Vladimir Horowitz
(concerto nº 1) ou Emil Gilels (nº 1 ao nº 3) nesse repertório.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Segundo
Caderno Tamanho: 678 palavras
Edição: 1 Página: 4
Coluna: Seção:
Caderno: Segundo
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