VENEZA LIGADA NA VIDA DE JOAQUIN PHOENIX

 

Paralelamente à disputa pelo Leão de Ouro, o festival italiano recebe documentário sobre o ator que preferiu ser ‘rapper’

 

JOAQUIN PHOENIX passeia por Veneza barbeado, mas ainda “blasé”

 

SOFIA COPPOLA: seu “Somewhere” (acima), estrelado por Stephen Dorff e Elle Fanning, fez sucesso

 

CATHERINE DENEUVE: surpresa por suas declarações e sua atuação em “Potiche”, de Ozon

 

Rodrigo Fonseca

 

umulto em formato de thriller político, “Essential killing”, que transforma o músico, ator e cineasta Vincent Gallo (“Brown bunny”) em um talibã fugitivo, pode ser o único filme com força para desconectar os olhos do 67º Festival de Veneza do (ex-)ator Joaquin Phoenix, cuja intimidade está aberta (ou quase) em “I’m still here”. Dirigido pelo polonês Jerzy Skolimowski e incluído na briga pelo Leão de Ouro, o longa-metragem protagonizado por Gallo teve sessão ontem. No mesmo dia, a mais antiga das grandes mostras de cinema da Europa (depois dela, vêm Cannes e Berlim, por ordem etária) recebeu, em seleção hors-concours, o documentário realizado pelo ator Casey Affleck (“O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford”) tendo como tema as transformações da vida de Joaquin desde que ele apareceu em público, há cerca de três anos, alegando que desistiria do cinema para virar rapper. Na ocasião, ele estava com uma barba desgrenhada, esbanjando antipatia. Mas Veneza viu um Joaquin bem diferente do perfil rústico de antes: ele saiu de uma gôndola bem barbeado, de terno, desfilando saúde. Mas continua evitando entrevistas. E permanece blasé, sempre com um cigarro na boca.

 

Crítica elogia Sofia Coppola

 

Além de ter trabalhado com Joaquin em “Um sonho distante” (1995), de Gus Van Sant, Affleck é cunhado do ator: ele é casado com a irmã dele, Summer Phoenix. Mesmo causando rebuliço no Lido, “I’m still here” parece ter desapontado a crítica internacional, como sugeriu o resenhista Derek Malcolm, do “London Evening Standard”: “Quem quiser saber por que Joaquin Phoenix, um dos melhores atores de sua geração, desistiu de uma carreira cinematográfica de sucesso para se arriscar na indústria da música, não vai encontrar respostas no filme de Casey Affleck.”

 

Embore ainda sonhe em fisgar respostas concretas de Joaquin, o Festival de Veneza — cuja mostra competitiva foi iniciada no dia 1º, com salvas e salvas de palmas para “Black Swan”, de Darren Aronofsky — tem outras preocupações pelo caminho, a começar por decidir que prêmio será atribuído, em seu encerramento, neste sábado, ao drama americano “Somewhere”, de Sofia Coppola. Mesmo sem ter sido uma unanimidade, como foi “Encontros e desencontros” (2003), o novo longa da filha de Francis Ford Coppola promoveu a paz entre a cineasta e os críticos que vaiaram seu “Maria Antonieta” no Festival de Cannes de 2006.

 

Ainda não confirmado pelo Festival do Rio 2010 (de 23 de setembro a 7 de outubro), “Somewhere” aborda a relação entre um astro famoso, Johnny Marco (Stephen Dorff), e sua filha adolescente (Elle Fanning) durante uma temporada no hotel Chateau Marmont, em Hollywood. Uma vez mais, Sofia embala sua narrativa numa trilha sonora de tons pop, indo de Foo Fighters a Bryan Ferry, passando por Kiss e The Police. O desempenho de Dorff comoveu Veneza, que pode dar a ele o prêmio de melhor ator.

 

No quesito melhor atriz, Veneza anda enamorada pela diva francesa Catherine Deneuve. Discutindo a situação política contemporânea da França, a eterna “bela da tarde” de Buñuel passou radiante por Veneza à frente da comédia “Le potiche”, de seu conterrâneo François Ozon.

 

Na produção, ambientada em 1977 e lotada de referências aos clássicos da carreira de Catherine, a estrela de “Fome de viver” interpreta Suzanne, mulher de um industrial que se vê obrigada a tomar conta da fábrica de guarda-chuvas do marido. Em seu caminho, surge um comunista convicto, Babin, vivido por Gérard Depardieu, que não conseguiu comparecer à exibição do longa. “Potiche” pode render prêmios a Ozon, assim como “Post mortem”, único representante sul-americano em concurso, pode render uma láurea de direção a Pablo Larraín, com seu olhar sobre a vida de um funcionário do IML chileno no princípio da ditadura de Pinochet.

 

Todos os anos, Veneza recebe um filme-surpresa em sua competição. O escolhido de 2010 foi “Le fossé” (“The ditch”), de Wang Bing, um relato sobre campos de reeducação política na China comunista dos anos 60. Trazendo um retrato violento do dia a dia de condenados chineses, o filme de Wang não causou sensação. No terreno das frustrações, a maior desilusão de Veneza desde o início da peleja pelo Leão dourado de 2010 é “Miral”, de Julian Schnabel, que a imprensa até o momento definiu apenas como “correto” — um adjetivo inusitado para o diretor de “O escafandro e a borboleta”.

 

O Brasil compareceu ao Lido com o curta-metragem “O mundo é belo”, de Luiz Pretti, exibido no domingo na mostra Orizzonti. Sábado, antes da entrega do Leão de Ouro, Andrucha Waddington vai a Veneza exibir o épico “Lope”, rodado na Espanha, tendo participações de Selton Mello e Sonia Braga.

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: Segundo Caderno     Tamanho: 836 palavras

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