UM EXPOENTE DO JAZZ AMERICANO ENTRE O CONCEITUAL E O EMOCIONAL

 

Aos 35, Jason Moran lança ‘Ten’, cujo mote são os dez anos de seu trio

 

JASON MORAN fez um álbum com sete compridas faixas, entre as quais as baladas predominam: “É o disco com as canções mais longas possíveis”, diz

 

Luiz Felipe Reis

 

costumado desde a infância a circular entre salões de artes plásticas, concertos de música clássica e montagens de balé, Jason Moran cresceu rodeado por arte, dentro e fora de casa. Colecionadores, seus pais recheavam as paredes com grandes telas e o ambiente com uma coleção de discos que expulsava dos alto-falantes das notas de Thelonious Monke às distorções do Led Zeppelin. Do primeiro contato com o piano, aos 6 anos, às primeiras incursões pelos clubes de jazz de Houston, no Texas, não demorou para o garoto se mostrar um prodígio, aos 15 anos, e, mais tarde, um autor vigoroso, que do alto de seus 35 é apontado como um dos expoentes do jazz americano.

 

— Apesar de ser jovem, entendi bem tarde que a música era realmente a minha vida. Meus pais não eram músicos, então nunca soube como era essa vida, como fazia para ganhar dinheiro, poder pagar as contas com isso... — diz.

 

CD é o quinto da carreira

 

Nem um contrato assinado e o primeiro CD lançado pela renomada Blue Note o fez acreditar que de fato havia transposto a linha que separa um músico amador de um artista:

 

— Só entendi que a música tomaria conta da minha vida com o lançamento de “Facing left”, meu segundo disco. Apesar de sentir a arte me envolver desde cedo, em casa ou nas aulas de piano, nos corais e no teatro do colégio, comecei a ouvir música de outra maneira, e a perceber que ela poderia ter humor, ser dramática, contemplativa. Enfim, cabiam todos os sentimentos do mundo, e cabia a mim escolher que caminho tomar.

 

Ao longo de sua discografia, que chega à quinta peça com o lançamento de “Ten”, Moran criou um quebra-cabeças repleto de atalhos, fragmentos que apontam diversos caminhos e emoções. Assim como o anterior, “Ten” extrapola barreiras, flerta com o cinema, soa moderno com um emaranhado de colagens sonoras misturadas às bases de piano, baixo acústico e percussão, numa cama de vozes instrumental sem qualquer atropelo.

 

Tendo como mote, ou ponto de partida, os dez anos à frente do trio que conta com os músicos Tarus e Nasheet, “Ten” exalta a harmonia e o entendimento entre músicos que começaram a criar cada uma das faixas há mais de quatro anos.

 

— Eu sabia que o adjetivo beleza deveria ganhar novos precedentes a partir desse álbum. Volta e meia entro de cabeça com a ideia de densidade, mas para esse trabalho quis ter certeza de que eu estava lidando com a beleza. Em todos os meus discos anteriores criei conceitos e sentidos. Agora, a única coisa que importa é expressar o relacionamento com os meus parceiros — conta.

 

Composto por sete longas faixas (“É o disco com as canções mais longas possíveis”, diz), as baladas predominam, em mais de quatro peças. Nelas, salta aos olhos a conversa, a troca de notas entre o trio. Ao passo que confessa não haver encontrado uma roupagem original o bastante para os seus primeiros trabalhos, Moran encara “Ten” como seu álbum mais coeso, “apesar de todas as suas disjunções”. Passados dez anos, Moran não deixa de elevar o aspecto histórico para além da efeméride ao entorno de sua produção.

 

— O álbum carrega um senso histórico, que o aproxima das lutas afro-americanas — comenta Moran.

 

Ampliando territórios

 

Se “RFK in the land of apartheid” remete às lutas raciais na África do Sul e nos Estados Unidos nos anos 60, “Big stuff” homenageia a musicalidade de Billie Holiday, enquanto “Play to live” e “To Bob Vatel of Paris” prestam tributos aos seus mestres, Jaki Byard e Andrew Hill:

 

— São histórias que montam a minha vida. “Old babies” é o capítulo que representa o meu legado. Definitivamente estamos mais maduros. Tenho trabalhado com artistas de diferentes formações, coreógrafos, cineastas... Então eu acho que a música é um reflexo dessas experiências recentes. O único critério é soar bem. Estou sempre tentando ir além do que esperam de mim. Sabia que devia ser diferente de todas as convenções que as instituições de jazz criaram. Ter a coragem de ir fundo e ampliar territórios que muitos jazzista jamais consideraram. Estou em busca de sentidos. De como posso usar o som para extrair a mensagem e entender como minha música pode refletir alguns dos pensamentos que tenho ao longo de um dia. Sei que isso pode ser algo extremamente conceitual, ou puramente emocional, repleto de improvisações... Mas meu objetivo é poder comunicar livremente através da minha música.

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: Segundo Caderno     Tamanho: 805 palavras

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