PÉROLA NEGRA
Como será a montagem de Aderbal Freire-Filho para ‘Orfeu’, de
Vinicius de Moraes, no Canecão
O JOVENS atores baianos Érico Bras e Aline
Nepomuceno interpretam os protagonistas Orfeu e Eurídice na versão que conta
com um elenco de 18 atores negros escolhidos em sessões-teste por Aderbal
Luiz
Felipe Reis
derbal
Freire-Filho não se contém. Diante do palco, sentado numa cadeira ou de pé, age
como um maestro. A cada cena ou diálogo, seus braços se erguem em movimentos
ora expansivos e longos, ora curtos, angulados e nervosos. Aponta para um,
chama outro à conversa, indica posições, pede atenção, faz repetir cenas e sobe
ao tablado para ajudar o elenco a materializar seu jogo incessante de gestos.
Há mais de dois meses é assim. O diretor não para. E, quando para, a ansiedade
com a estreia de “Orfeu”, nesta quinta-feira, no Canecão, se torna evidente.
Assim como a expressão de cansaço em seu rosto e a excitação com o desafio de
recriar a montagem clássica que uniu Vinicius de Moraes e Tom Jobim pela
primeira vez. Cinquenta e quatro anos após a estreia de “Orfeu da Conceição”,
num Teatro Municipal ornamentado com cenários de Oscar Niemeyer, Aderbal
comanda 18 jovens atores negros na encenação da ópera greco-carioca escrita
pelo poeta e musicada pelo maestro da bossa nova.
—
Vinicius procurava um compositor para escrever as canções da peça, e foi assim
que conheceu o Tom. Eles poderiam ter feito o trabalho e nunca mais se encontrado.
Hoje sabemos que foi ali que se formou uma das parcerias mais importantes da
História da música brasileira — diz Aderbal. — Compuseram para essa peça, e
depois dela, verdadeiras obras-primas, como “A felicidade”, “Se todos fossem
iguais a você”, “Lamento do morro”... Além dessas, incluímos outras canções
feitas posteriormente, como “Chora coração”, que cabe especialmente numa das
cenas. Algumas parecem ter sido criadas para a montagem, é como se fossem uma
extensão.
Muito
antes da chegada de Aderbal — e das duas encenações realizadas por Haroldo
Costa nos anos 90, e da montagem dirigida por Leo Jusi em 1956 —, tudo começou
numa noite de verão em 1942. Vinicius de Moraes acabara de chegar à casa do
pintor Carlos Leão, ao pé do Morro do Cavalão, em Niterói. Na estante do
anfitrião, deparou-se com um libreto da ópera “Orfeu e Eurídice”, de Gluck. O
poeta não pestanejou. Retirou o livro da coleção e chafurdou na poltrona
devorando suas linhas. Da janela ao lado, o morro ressoava uma batucada. Aproximava-se
o carnaval. No relógio, passava da
—
Orfeu sempre me interessou por causa do negócio do poeta músico, do poeta
total, né? — relatou Vinicius, em depoimento ao MIS, em 1967. — E, depois, por
causa da relação sublime do amor dele por Eurídice. As duas ideias se fundiram.
Eu senti o morro negro numa série daqueles elementos. As paixões, a música, a
poesia...
Agora
com direção musical de Jaques Morelenbaum e Jaime Alem, Orfeu é um sambista que
vive no morro. Filho de um músico e de uma lavadeira, acredita ser capaz de
vencer todas as adversidades através do poder da música. Ao se apaixonar por
Eurídice, acaba por despertar o ciúme e o desejo de vingança em Mira, sua
ex-namorada, e em Aristeu, que, apaixonado por Eurídice, decide matá-la no
último dia de carnaval. Após descer o morro em busca de Eurídice, já morta,
Orfeu retorna à favela, onde é assassinado por Mira e por outras de suas
ex-amantes. Ao contrário de um roteiro de cinema, como os realizados pelo
diretor francês Marcel Camus (“Orfeu negro”, 1959) e por Cacá Diegues (“Orfeu”,
1999), Aderbal não mexe no núcleo original do texto. Prefere destacar a
natureza clássica da tragédia deixada por Vinicius, e cria variantes que
reforçam o tom dominante da peça.
—
Não criei novos personagens, diálogos, cenas ou conflitos dentro do texto, mas
construí uma dramaturgia no entorno. Não chamo o meu trabalho de adaptação, é
diferente do que foi feito no cinema — explica o diretor. — Originalmente, a
peça tinha um coro e um corifeu. O coro agora são os amigos do poeta, e o
corifeu é o poeta. Criei diálogos e cenas para esses amigos. Boa parte do que o
poeta diz são versos do Vinicius. Pus em cena sonetos, canções e diálogos nos
espaços onde a peça permite. São intervenções que dialogam com o original, mas
não o modificam.
Na
encenação, nomes poucos conhecidos do grande público despontam como
protagonistas. Cada vaga no elenco foi conquistada durante um longo processo,
entre as sessões-teste, realizadas há três meses, com atores de todo o país, e
os ensaios, nos quais o diretor pôde avaliar o perfil de cada um.
—
Para Orfeu, precisava de um ator com energia e poder de sedução. Um ator forte
e potente. Capaz de mostrar que pode vencer tudo através da música. Que
irradiasse esse poder e mostrasse uma sensibilidade, uma presença artística e
uma aura poética — define Aderbal. — Já para Eurídice, a juventude era
fundamental. Não a pureza, o aspecto virginal, casto... Mas, sim, o jeito
maroto, a alegria da juventude.
Formado
no Bando de Teatro Olodum, e visto recentemente no longa “Quincas Berro
d’Água”, Érico Bras encarna a potência da aura poética de Orfeu. Enquanto Aline
Nepomuceno, atriz baiana que protagonizou a primeira e a segunda temporadas da
minissérie “Ó paí, ó”, interpreta Eurídice. Não é a primeira vez que esses
jovens atores baianos se encontram. Mas é, sim, a primeira vez que ambos
mergulham fundo na poética do “branco mais negro do Brasi”.
—
Quando soube que iríamos fazer o casal, pensei: “Estou em casa” — brinca a
atriz, que já trabalhou com Érico em “A grande família” e em “Ó paí, ó”. — Tudo
entre nós flui de forma muito verdadeira, sem pudor. E agora estamos
construindo juntos mais essa história.
Érico
Bras completa:
—
Vim da Bahia e pude mergulhar por inteiro na obra de Vinicius, que conhecia,
mas não havia absorvido tão intensamente. Entendi profundamente a sua relação
com o morro, com a beleza do negro, com as diversas formas de amar, com o poder
da música e com o jogo entre a vida e a morte... Tive que transportar o meu
corpo e a minha arte para a atmosfera musical e da cultura negra do Rio, que é
bem diferente da baiana. É literalmente um prazer estar num elenco de negros
cariocas e baianos que estão juntos para redescobrir a essência do “Orfeu”
idealizado por Vinicius, que parte do mito grego e segue até o Orfeu das
favelas de hoje.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Segundo
Caderno Tamanho: 1137 palavras
Edição: 1 Página: 1
Coluna: Seção:
Caderno: Segundo
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