VIGÍLIA CONTRA MATANÇA DE GOLFINHOS

 

ONGs protestam no início da temporada de caça no Japão

 

RIC O’BARRY mostra um jornal local durante coletiva de imprensa ontem, em Tóquio: o ex-treinador de golfinhos foi ameaçado de morte por pescadores. Acima, uma passeata no fim de semana contra o início da temporada de caça aos cetáceos este mês

 

Claudia Sarmento

 

Oprincipal personagem do filme “The Cove” — documentário sobre a matança de golfinhos no Japão que ganhou o Oscar de 2010 — decidiu não ir à cidade de Taiji este ano para acompanhar a temporada de caça dos cetáceos, que começa este mês no Japão. Ric O’Barry, um ex-treinador que se transformou no principal nome da campanha contra a captura e matança dos golfinhos, foi alvo de ameaças de morte de grupos da extrema direita japonesa, que consideram o filme uma ofensa ao Japão.

 

Para evitar violência, disse o ativista, ele preferiu seguir o conselho da polícia local e não pisar em Taiji. A pequena cidade de 3.400 habitantes, no entanto, está sendo monitorada por outros grupos ambientalistas e pela imprensa, mas O’Barry admite que talvez a pressão apenas irrite ainda mais os pescadores.

 

— Talvez seja a hora de recuar e deixar os japoneses enfrentarem esse problema e abraçarem essa causa — disse o ativista em Tóquio, onde faz campanha para evitar a matança a golpes de arpão, registrada de forma impressionante no documentário de Louie Psihoyos, um fotógrafo da “National Geographic”.

 

Uma tradição milenar japonesa

 

Os pescadores de Taiji alegam que matar golfinhos e comer sua carne é uma tradição milenar, mas O’Barry — o homem que treinou os animais da série “Flipper” antes de virar um ativista — não aceita essa explicação. Segundo ele, a prática só começou em 1933 e, além disso, o fato de a carne ser contaminada por mercúrio, como mostra o documentário, deveria pesar mais do que qualquer questão cultural.

 

— A carne já foi retirada da merenda escolar das crianças de Taiji por causa da contaminação, mas continua sendo vendida no mercado sem nenhuma advertência — disse ele. — Isso deixou de ser uma campanha de proteção dos animais para se tornar um problema de direitos humanos. Os japoneses têm o direito de saber o que estão comendo.

 

O ex-treinador, no entanto, condenou a tática de grupos como o Sea Shepherd, que persegue a frota japonesa no Ártico para impedir a caça de baleias, o que já levou a choques em alto mar. Membros da organização estão em Taiji, mas O’Barry teme que seus métodos sejam contraproducentes.

 

— Nós precisamos trabalhar com os japoneses e não contra eles — afirmou, acrescentando que “The Cove” não é um filme contra o Japão. — O povo de Taiji é inocente. A matança é feita por uma minoria. São 13 barcos, com dois homens em cada um. Estamos falando de 26 caras que conseguiram denegrir a imagem de um país.

 

Por enquanto, não há sinais de sangue nas águas de Taiji neste início da temporada de caça, mas ativistas relataram a captura de pelo menos 20 golfinhos nos últimos dias, que provavelmente serão vendidos a parques aquáticos. A cada ano, cerca de 1.500 cetáceos são mortos na região, a sete horas de trem de Tóquio. Na capital japonesa, O’Barry entregou à Embaixada dos EUA uma petição pelo fim da caça com 1,7 milhão de assinaturas de 151 países. O ex-treinador quer que o governo americano pressione o Japão a proibir a prática, mas apesar de “The Cove” ter mostrado ao mundo o que acontece na isolada baía de Taiji, o assunto ainda não é um debate de grandes proporções entre os japoneses.

 

— A mídia japonesa não tem muito interesse no assunto. Alguns repórteres me disseram que gostariam de relatar toda a história, mas ela dificilmente será publicada — acusa O’Barry, que agora estrela um programa no Animal Planet.

 

A minissérie “Blood Dolphins” mostra a luta dos ativistas em Taiji e nas Ilhas Salomão, na Oceania, onde matar golfinhos é uma prática de 400 anos e até o dente do cetáceo é considerado valioso.

 

— Ensinamos aos pescadores atividades alternativas e, pela primeira vez, eles estão dispostos a interromper o massacre — disse o ativista americano, de 70 anos. — Se isso é possível nas Ilhas Salomão, acredito que também será no Japão.

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: Ciência          Tamanho: 730 palavras

Edição: 1         Página: 28

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