CARTAS PARA MINEIROS SÃO CENSURADAS

 

Medida seria para poupar homens presos em mina chilena de mais problemas

 

Francisco Peregil

 

SANTIAGO. Víctor Zamora foi há até pouco tempo o piadista oficial do grupo de 33 mineiros soterrados no chile. Ele enviava histórias engraçadas e poemas para a superfície, e escrevia sobre sua felicidade de estar ali por não precisar se limpar. Tudo isso, por cartas. No sábado, equipes de resgate conseguiram fazer com que todos os operários falassem com três parentes por um minuto cada. Finalmente poderiam olhar nos olhos enquanto falavam. Mas o que era para ser um dia de festa chateou alguns mineiros.

 

Zamora reclamou com a sua família que recebeu apenas uma carta em sete dias. Ele temia que estivessem escondendo alguma informação. “Mas nós enviamos pelo menos 15”, disse a esposa, Jessica Cortés ao marido.

 

— Aqui, há mulheres que dizem que são psicólogas, mas não as vi usando identificação — reclamou Jessica. — Elas leem as cartas, colocam-nas na bolsa, e não sabemos o que fazem. Soube que elas leem porque há mineiros com várias mulheres, e (as psicólogas) não querem que eles recebam problemas das mulheres. Mas com pessoas que só têm uma mulher e um filho, como o Víctor, não deveria haver problemas.

 

Cerimônia lembra um mês do acidente

 

Segundo Jessica, 22 famílias sofrem o mesmo problema.

 

— A única pessoa que deveria ler as cartas seria o psicólogo. E se deixassem a gente falar mais tempo (por vídeo), não haveria este problema — acrescentou a mãe de Zamora.

 

Nos últimos dias, o acampamento dos parentes na mina San José parecia um imenso escritório literário, onde se via em qualquer lugar e a qualquer momento uma pessoa lendo ou escrevendo uma carta. Em plena era digital, o papel tem sido fundamental para amenizar as dificuldades enfrentadas por todos.

 

Mas o volume de papel é muito grande, pois há apenas um tubo de 12 centímetros de diâmetro para a comunicação com os soterrados. O coordenador dos psicólogos, Alberto Iturra, reconheceu que houve “problemas na organização” das cartas.

 

— No início tudo funcionava bem porque só enviávamos 33 cartas. Com 80, começamos a tirar o espaço da comida. E se chegar a mil, deixamos de enviar outros itens indispensáveis. Não se pode esquecer que esta é uma operação de resgate, e não de comunicação — afirmou Iturra, acrescentando que sábado começaram a ser realizadas videoconferências. — Assim não vamos precisar controlar o teor das cartas, pois a comunicação é real e instantânea.

 

Numa ação polêmica, Iturra se recusou a enviar bebidas alcoólicas para a comemoração do bicentenário da independência no dia 18.

 

— Não estamos em festa. A mineração chilena tem séculos de tradição e nunca se pôde beber numa mina.

 

No domingo, parentes se emocionaram ao lembrar um mês do acidente. Acompanhados do ministro da Mineração, Laurence Golborne, fincaram uma bandeira numa colina e mencionaram os nomes de cada um dos operários.

 

— Voltamos ao início. Dói a todos como família e a eles também que estão lá embaixo, mas vamos seguir em frente — disse, com a voz embargada, a irmã do mineiro Víctor Segovia.

 

Golborne contou que as equipes de resgate deram início a um plano B, que prevê o uso de outra máquina para alargar um dos pequenos túneis já escavados. A estratégia pode antecipar o retorno dos operários em um mês.

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: O Mundo       Tamanho: 567 palavras

Edição: 1         Página: 27

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