1938 EM 2010

 

Paul Krugman

 

Eis a situação: A economia americana foi mutilada pela crise financeira. As políticas do presidente limitaram o estrago, mas foram muito tímidas, e o desemprego permanece desastrosamente alto. Mais ações se fazem necessárias. Mas a fraca iniciativa do governo azedou o humor do público, que parece pronto para dar aos democratas uma estrondosa derrota nas eleições legislativas.

 

O presidente em questão é Franklin Delano Roosevelt; o ano, 1938. Após alguns anos, a Grande Depressão havia acabado. Porém, é simultaneamente instrutivo e desestimulante olhar a situação nos EUA por volta de 1938 — instrutivo porque a natureza da recuperação que se seguiu refuta os argumentos que dominam hoje o debate público; desestimulante porque é difícil imaginar a repetição de um milagre como o dos anos 40.

 

Agora, estamos revivendo o fim dos anos 30. Os economistas do presidente Obama prometeram não repetir os erros de 1937, quando Roosevelt retirou os estímulos fiscais cedo demais. Mas, ao lançar um programa muito pequeno e de curta duração, Obama acabou fazendo exatamente isso: o estímulo provocou crescimento enquanto durou, mas teve apenas um leve impacto no desemprego — e agora está desaparecendo.

 

E exatamente como alguns de nós temíamos, a inadequação do plano inicial do governo o colocou — e a nação — numa armadilha política. Mais estímulo é desesperadamente necessário, mas aos olhos do público as falhas do plano inicial em proporcionar uma recuperação convincente desacreditaram as iniciativas do governo para criar emprego.

 

Em resumo: bem-vindo a 1938.

 

A história de 1937 — da desastrosa decisão de Roosevelt de ouvir aqueles que pregaram que era hora de cortar o déficit — é bem conhecida. O que é menos conhecido é a extensão das conclusões equivocadas que o público tirou da recessão que se seguiu: em vez de demandar a retomada dos programas do New Deal (de estímulo econômico), os eleitores perderam a fé no crescimento fiscal.

 

Considere a pesquisa Gallup de março de 1938. Indagados se os gastos do governo deveriam crescer para combater a retração, 63% dos entrevistados disseram não. Perguntados sobre se seria melhor elevar os gastos ou cortar impostos das empresas, apenas 15% apoiaram a elevação dos gastos. E as eleições de 1938 foram desastrosas para os democratas, que perderam 70 assentos na Câmara e sete no Senado.

 

Aí veio a guerra.

 

Do ponto de vista econômico, a Segunda Guerra Mundial foi, sobretudo, uma explosão dos gastos do governo financiados pelo déficit público, numa escala que não seria jamais aprovada de outra forma. Na guerra, o governo pegou emprestado quase o equivalente ao dobro do valor do PIB, em 1940. Hoje, seria o equivalente a cerca de US$30 trilhões.

 

Se alguém tivesse sugerido gastar mesmo uma fração disso antes da guerra, as pessoas teriam dito as mesmas coisas que estão dizendo hoje. Alertariam sobre a esmagadora dívida e a descontrolada inflação. Também teriam dito que a Depressão era causada em grande parte pelo excesso de dívida — e, portanto, seria impossível consertar o problema com mais endividamento.

 

Mas, veja. O aumento do déficit causou boom econômico — e esse boom criou as bases de uma prosperidade de longo prazo, pública e privada — e até uma redução da relação da dívida pública com o PIB, graças à expansão econômica e, de fato, alguma inflação.

 

A moral econômica é clara: quando a economia está mergulhada em depressão, as regras usuais não se aplicam. Austeridade é autoderrota. A história de 1938 também revela o quanto é difícil aplicar esses princípios. Essa queda pode ser curada. Só é necessário um pouco de clareza intelectual e muito de vontade política.

 

PAUL KRUGMAN é colunista do “New York Times”

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: Economia     Tamanho: 626 palavras

Edição: 1         Página: 21

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