FALSO MÉDICO: POLÍCIA INVESTIGA MORTES EM HOSPITAL

 

Delegacia especializada fará levantamento de partos com morte suspeita realizados este ano em unidade de Belford Roxo

 

SILVINO MAGALHÃES após ser preso no domingo: estudante recebia R$700 reais para trabalhar no plantão

 

Carla Rocha e Vera Araújo

 

A polícia vai fazer um levantamento dos partos realizados este ano no Hospital das Clínicas de Belford Roxo, em que tenha havido morte da parturiente ou do bebê. No domingo, foi preso na unidade o falso médico Silvino da Silva Magalhães, de 41 anos, que cursava o 9º período de Medicina da Universidade de Nova Iguaçu (Unig). Ele atendia como obstetra e ginecologista usando um carimbo com o nome dele e o número de CRM de outro profissional. Silvino também usava a identificação do dono da clínica, Deodalto José Ferreira, que será chamado para depor amanhã. O presidente do Conselho Regional de Medicina, Luís Fernando Moraes, já abriu uma sindicância para apurar o caso.

 

Polícia procura colombiano que fugiu

 

O titular da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública (DRCCSP), Fábio Cardoso, afirmou que tem informações sobre a morte de bebês na unidade:

 

— Queremos saber se estas mortes estão ligadas à atuação de falsos médicos ou a casos de omissão ou negligência médica — disse.

 

Segundo o delegado, no momento da operação que resultou na prisão de Silvino, havia cerca de 20 mulheres em trabalho de parto no hospital, mas apenas o acusado — que disse receber R$700 por mês para fazer os plantões — e um colombiano, que fugiu, estavam no local para fazer o atendimento. O colombiano, que era conhecido como doutor Félix, está sendo procurado. Há uma suspeita de que ele também seria universitário ou não teria um registro ativo para exercer a profissão no Brasil.

 

— É uma situação muito grave. Um hospital grande, com centro cirúrgico, aos cuidados de um estudante — observou Fábio Cardoso.

 

O presidente do Cremerj, Luís Fernando Moraes, informou que, além do dono da clínica, também será chamado a prestar esclarecimentos o dono do registro no CRM usado pelo estudante. Na página do conselho, o número corresponde ao do ortopedista Fernando Coutinho Freitas Júnior, que não foi localizado.

 

— O processo ético pode levar à cassação do registro profissional dos médicos envolvidos na fraude. Também vamos pedir à polícia todas as informações do inquérito para municiar o nosso trabalho — ressaltou o presidente do conselho.

 

Já o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, classificou a situação de gravíssima e atribuiu o problema ao déficit de profissionais da rede, à impunidade e a falhas nos mecanismos de fiscalização.

 

— Se o exercício ilegal da medicina fosse um crime hediondo, como a falsificação de medicamentos, isto não aconteceria. E também se os órgãos competentes, como a Vigilância Sanitária e outros que tem esta atribuição fiscalizassem o funcionamento das unidades de saúde — criticou Jorge Darze.

 

Hospital tinha remédios fora da validade

 

Os policiais também recolheram no hospital fichas e receituários assinados e carimbados com os nomes de vários médicos que deverão ser convocados a comparecer na delegacia. Eles podem ter sido usados nas falsificações, mesmo sem ter conhecimento. A Vigilância Sanitária também será comunicada de que foram recolhidos na unidade medicamentos e produtos hospitalares fora do prazo de validade.

 

Jornal: O GLOBO          Autor: 

Editoria: Rio    Tamanho: 555 palavras

Edição: 1         Página: 19

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