ANALISTA FILIADO AO PT DIZ QUE ABRIU DADOS SEM TER DOCUMENTOS
‘Há vários casos de homônimos com nome de Eduardo Jorge’, afirma ele
AMARANTE: ele negou ter feito intencionalmente 10 acessos
sobre EJ
AGÊNCIA DA Receita em Formiga: cerca de 100
atendimentos diários
Cassio
Bruno
FORMIGA
(MG). Responsável por abrir dez vezes os dados cadastrais do vice-presidente do
PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, em Minas, o analista tributário da Receita
Federal Gilberto Souza Amarante disse que agiu atendendo a uma consulta de um
homem que o procurou no escritório da Receita em Formiga (MG) e se apresentou
como Eduardo Jorge.
Amarante
disse que a pessoa não levou documentos. Segundo a direção da agência de
Formiga, é comum que clientes peçam acesso a dados cadastrais sem mostrar
documentos que comprovem sua identidade.
—
A minha função é acessar dados. Há 17 anos, faço isso várias vezes por dia. Não
lembro quem me procurou — afirmou Amarante.
O
analista disse que não se lembra da pessoa nem se ela lhe deu algum sobrenome.
Para Amarante, a hipótese mais provável é que um outro Eduardo Jorge tenha ido
ao local para obter as informações.
—
O acesso foi feito durante o horário de expediente, no atendimento. Há vários
casos de homônimos com esse nome de Eduardo Jorge. Nossa base cadastral é
nacional. Então, o que é factível é que houve um homônimo, e esse acesso durou
apenas 41 segundos, conforme o relatório da Receita — disse o analista.
Amarante
negou ter feito 10 acessos no cadastro do vice-presidente do PSDB:
—
O sistema, quando está pesquisando o nome, registra cada mudança de página como
um acesso. E esse acesso foi na base cadastral e não na base fiscal (do
tucano).
“Violar dados é gravíssimo”, diz presidente do PT
de Arcos
O
chefe da agência da Receita em Formiga, Jorge Faria, no entanto, revelou que,
para ter acesso apenas aos dados cadastrais não é necessário a apresentação de
documentos. Somente, segundo Faria, em casos de emissão de certidão de débito,
de pesquisas e de situação fiscal, entre outros serviços. Nessa agência,
trabalham nove funcionários que atendem cerca de 100 “clientes” diariamente.
—
A gente supõe que ninguém está aqui para fazer ato ilícito. Se formos olhar
todos os clientes como bandidos, fica complicado — disse Faria.
O
analista contou que, se a requisição de dados for feita por outra pessoa que
não o titular do CPF pesquisado, a consulta pode ser realizada através de uma
procuração para terceiro. Ele, contudo, lembrou que esse documento não fica
registrado na agência. Amarante ressaltou ainda ter tomado conhecimento do
episódio apenas no último fim de semana porque “a imprensa registrou o
documento da investigação do caso”.
De
acordo com o analista, na base cadastral só existem informações como o nome
completo, a data de nascimento, o sexo, a filiação, o endereço e o CPF.
—
Foi acessada uma base cadastral. Não foi acessado nenhum dado fiscal. Muitas
vezes, para perceber que a pessoa que está perante a gente é mesmo aquela
pessoa, é preciso acessar o sistema — explicou ele.
Em
relação ao PT, partido ao qual é filiado desde
—
É bom a gente desfazer outro equívoco que está fazendo indevidamente o caso
ganhar uma proporção que não tem. Filiação partidária não se confunde com
militância. Nunca tive nenhum tipo de militância política. Assim que cheguei à
cidade de Arcos (a 30km de Formiga, onde ele trabalha), me chamaram para
participar de uma reunião e pediram para me filiar. Entrei no PT por educação.
Perguntado
sobre as declarações do presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, de que
poderia expulsá-lo do partido, Amarante disse que sua filiação “não tem
efeito”.
—
A filiação para mim não tem efeito. Não sou ligado à política, não faço
qualquer contribuição financeira ao PT.
O
analista descartou envolvimento com o PT nacional, o ex-prefeito de Belo
Horizonte Fernando Pimentel, o jornalista Amaury Ribeiro Junior — que atuava no
comitê de imprensa da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff —, e o
contador Antônio Carlos Atella Ferreira, que usou uma procuração falsa em nome
de Verônica Serra, filha de José Serra (PSDB).
O
analista disse não se lembrar de quem abonou sua ficha de filiação no PT.
Afirmou somente ter sido um pedido de um ex-presidente do PT de Arcos.
Amarante
disse ainda estar constrangido com o episódio:
—
Estou altamente constrangido e indignado com a forma como as notícias estão
sendo divulgadas. Eu também sou cidadão. Tenho direitos. Sou servidor de
carreira do Estado.
Durante
nove minutos de entrevista, no estacionamento de um hotel perto da Agência da
Receita de Formiga, Amarante estava acompanhado do delegado sindical da Receita
Federal de Divinópolis, André Luiz Fernandes, e de Jorge Faria, chefe da
agência de Formiga.
O
tesoureiro do PT em Arcos, Dorival Ribeiro, disse que, em 2001, quando presidia
o partido na cidade, levou Amarante para se filiar, mas que o analista nunca
teve participação ativa.
—
Achávamos que ele seria brilhante, indicado até para disputar a prefeitura.
O
presidente do PT de Arcos, Hideraldo José, negou participação do partido no
caso e disse não conhecer Amarante.
—
Se ele cometeu erro, tomaremos as providências cabíveis. A gente preza pela
ética. Violar dados é gravíssimo.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: O País Tamanho: 894 palavras
Edição: 1 Página: 4
Coluna: Seção:
Caderno: Primeiro
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