‘É UMA COISA TERRÍVEL A DESPOLITIZAÇÃO’
Presidenciável do PSOL, Plínio ataca ‘políticas capitalistas’ dos
últimos 16 anos, além de Dilma, Serra e Marina
PLÍNIO DE ARRUDA Sampaio, candidato à Presidência
pelo PSOL: “O Bolsa Família é um programa que não existiria em uma sociedade
justa”
Tatiana
Farah
SÃO
PAULO. O jurista Plínio de Arruda Sampaio, de 80 anos, 65 de militância
política, não aposenta as armas nunca. Candidato a presidente pelo PSOL,
dispara contra os principais adversários. Dilma Rousseff (PT) tem “uma certa
impostura”, José Serra (PSDB) tem “uma certa truculência”, e Marina Silva (PV)
é “carreirista”. Plínio é igualmente implacável com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, do partido que ajudou a fundar, mas que abandonou em 2005. Para
Plínio, o governo de Lula “foi frustrante”. “Saí do PT porque o PT saiu de
mim”, afirma o candidato socialista.
Esta
semana, O GLOBO fará sabatinas com os principais candidatos a presidente na
sede do jornal, no Rio. Líder nas pesquisas, Dilma Rousseff (PT) se recusou a
debater as questões do país e suas propostas com os colunistas e leitores do
jornal. Já Marina Silva, candidata do PV, será entrevistada no auditório do
jornal no próximo dia 9, quinta-feira, com transmissão ao vivo para o site. No
dia seguinte, sexta-feira, será a vez do candidato do PSDB, José Serra.
Plínio
de Arruda Sampaio foi entrevistado em São Paulo, na semana passada.
O
GLOBO: Qual a solução para o Brasil?
PLÍNIO
DE ARRUDA SAMPAIO: É acabar com a desigualdade social.
O
GLOBO: Em que o senhor se difere dos demais candidatos?
PLÍNIO:
No fato de que, para mim, a prioridade primeira é acabar com a desigualdade
social.
O
GLOBO: Se o senhor fosse tomar cinco medidas prioritárias, quais seriam?
PLÍNIO:
Reforma agrária radical, redução da jornada de trabalho, reforma urbana,
educação pública e saúde pública.
O
GLOBO: Qual sua avaliação da atual campanha?
PLÍNIO:
A lei impede o debate. A grande mídia está de acordo com isso porque à
burguesia brasileira não interessa o debate. Ela está bem, tranquila, mas
sempre teme o povo. A característica da burguesia brasileira é uma
contrarrevolução permanente. Porque entre a Dilma, a Marina e o Serra não
existe nenhuma diferença substantiva. Representam diferentes facetas de um
mesmo modelo, capitalista. No caso, aqui, é um modelo neoliberal e selvagem.
O
GLOBO: Em relação à quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra e outros tucanos,
o senhor acredita que a campanha de Dilma Rousseff tem alguma responsabilidade
nisso?
PLÍNIO:
Não sei e nem me preocupo saber. O que sei é que isto é distração dos problemas
reais. Nós não deveriamos estar discutindo isso, mas educação, saúde e coisas
fundamentais para o povo brasileiro.
O
GLOBO: No primeiro debate na TV, o senhor foi bem duro com a senadora Marina.
Mais até do que com os candidatos que estão à frente na pesquisa. É uma
estratégia ou uma crítica direta a ela?
PLÍNIO:
Na verdade, foi por acaso. Você, quando está numa luta de boxe, não controla
toda a força de todos os seus golpes. Então o da Marina saiu um pouco mais
forte, e ela é muito débil, né? Então apareceu muito. Mas não foi uma
estratégia. A estratégia é criticar igualmente os três.
O
GLOBO: Mas o senhor ficou magoado porque ela não foi para o PSOL?
PLÍNIO:
Não fiquei magoado. Constatei o seguinte: estranha figura que deixa um governo
por discordar das políticas desse governo e vai para um partido que apoia esse
governo. Não tem lógica. Mas não considero que chamá-la de ecocapitalista seja
um ataque. É ataque na medida em que ela procurar esconder isso. Se me chamam
de ecossocialista, eu fico muito alegre.
O
GLOBO: O senhor fez uma crítica dura ao governo Lula, chamando-o de nefasto. É
sua opinião ou é o calor da campanha?
PLÍNIO:
Não. Eu diria que o governo do Fernando Henrique (Cardoso) foi nefasto. O
governo do Lula é frustrante. Frustrou terrivelmente esperanças. Não tenho nada
contra o PT nem contra os petistas. Tenho contra a cúpula que desviou o PT do
seu caminho. Mas no PT há muita gente séria, correta.
O
GLOBO: O presidente Lula está nessa “cúpula” ou está no grupo das pessoas
sérias?
PLÍNIO:
Sem dúvida está nessa cúpula. Não teria condição nenhuma de o PT seguir isso se
ele (Lula) tivesse outra atitude.
O
GLOBO: Em seu programa há medidas como taxação das grandes fortunas, limites da
propriedade de terra. Como fazer a transição para esse modelo?
PLÍNIO:
Na eventualidade da vitória do PSOL, a conjuntura será completamente distinta.
Toda eleição muda a correlação de forças. E, no caso, a mudança seria total.
Teríamos um apoio popular suficiente para sustentar todas essas medidas.
Tranquilamente.
O
GLOBO: As pesquisas recentes o afastam ainda mais do sonho da Presidência. Mas
o senhor já disse que a Presidência não era o mais importante na campanha.
PLÍNIO:
Sim. O importante era ter uma candidatura que dissesse as coisas que precisam
ser ditas.
O
GLOBO: E o senhor está conseguindo dizê-las?
PLÍNIO:
Acho que estou. Nos debates de TV, isso ficou evidente. No meu programa
eleitoral, também. E no meu Twitter, todo dia. Estou conseguindo dizer a uma
parcela relativamente pequena, porém não insignificante, que toda essa
problemática não diz respeito ao povo. O povo tem outras prioridades, outras
colocações.
O
GLOBO: Temos pelo menos quatro candidatos à Presidência que vêm de uma história
de esquerda. A ministra Dilma foi da luta armada, o Serra também veio de um
passado de esquerda...
PLÍNIO:
Veio, ele veio (risos).
O
GLOBO: Toda vez que se fala em José Serra, o senhor dá um sorrisinho. O senhor
é mesmo amigo dele?
PLÍNIO:
Sou amigo pessoal, o que não me impede de ter uma atitude de absoluta crítica
ao programa dele. E eu dou um pouco de risada por achar curioso, para mim é
muito curioso ver o Serra numa posição conservadora. Eu o conheci numa posição
de esquerda, avançada. Eu não consigo deixar de rir.
O
GLOBO: Mas ele tem esse passado, e o partido dele está em um campo mais
democrático. E tem a Marina. Olhando para esses candidatos, o Brasil melhorou?
PLÍNIO:
Não. Porque esses candidatos não são mais de esquerda. Ao contrário, esse é um
sinal ruim. A pressão foi tão forte que esses candidatos largaram suas
convicções, abandonaram suas convicções.
O
GLOBO: Nos seus 65 anos de militância, o que melhorou ou piorou?
PLÍNIO:
Esta que é a minha tristeza: piorou muito. Quando eu comecei, aos 15 anos, o
Brasil era efervescente. Na década de 50, os comunistas iam para a Praça do
Patriarca (no Centro de São Paulo) para discutir, enchia de gente. Agora, não.
É uma pasmaceira. É uma coisa terrível a despolitização do país. E os
problemas, agravados.
O
GLOBO: O senhor defende dois pontos bastante polêmicos: a liberalização de
certas drogas e a legalização do aborto.
PLÍNIO:
Sou um homem cristão, e, como cristão, sou contra o aborto. Mas como
governante, se eu vier a ser, sou um homem público. Não posso impor a outras
pessoas a minha convicção. A interrupção precoce da gravidez é um problema de
convicções. Por outro lado, o aborto é problema social gravíssimo. Cem mil
jovens perdem a vida anualmente com aborto. Descriminalizar é uma tolerância. É
preciso legalizar. Não é liberalizar total, é colocar sob o controle da lei
para reduzir.
O
GLOBO: E quanto à questão das drogas?
PLÍNIO:
O PSOL ainda não fixou definitivamente sua posição. Trabalho com um grupo
amplo, com psicólogos, assistentes sociais e a rapaziada. A alegação dos rapazes
é que a maconha está sendo um pretexto para que a polícia chantageie os jovens,
principalmente pobres e negros. Acho que, legalizando essa droga cultural, fica
mais fácil fiscalizar e estabelecer limites.
O
GLOBO: Há um milhão de usuários de crack no Brasil, e pelo menos 10% desses
jovens acabam na prisão. Qual é a sua posição?
PLÍNIO:
O narco é uma empresa capitalista muito mais conectada com o grande capital do
que se pensa. É a grande fonte de lavagem de dinheiro. Tem de haver um combate
frontal, policial, sem trégua. Ao lado disso, a montagem de um sistema real de
tratamento.
O
GLOBO: Como ficaria sua relação com a Bolívia, com a Colômbia? O senhor se
relacionaria com as Farc?
PLÍNIO:
Com a Colômbia, muita dificuldade. Com a Bolívia, a Venezuela, uma colaboração
estreita. Com Cuba, excelentes relações.
O
GLOBO: E com os Estados Unidos?
PLÍNIO:
Não temos nada contra os Estados Unidos. O único problema é a questão das
multinacionais aqui. Se eles aceitarem não ter nenhuma intervenção em relação
às medidas que vamos tomar para sopitar um pouco a ganância dessas empresas,
nenhum problema.
O
GLOBO: E com o Irã? O presidente Lula é bem criticado por sua relação estreita
com o presidente Ahmadinejad.
PLÍNIO:
Se eu tenho relações com os Estados Unidos, com Israel, por que não tenho com o
Irã? Um dos únicos pontos positivos que ele (Lula) tem é esse. Eu não vejo
problema nenhum.
O
GLOBO: Sobre a reforma agrária, o senhor defende uma limitação de propriedade.
PLÍNIO:
Uma fazendona de 500 alqueires é uma monstra. O dono tem todas as condições de
ser um homem muito rico. Não há razão para alguém ter mais do que essa
quantidade de terra.
O
GLOBO: Em uma sabatina, o senhor disse que seria “o primeirão” nas ocupações de
terra. Como seria sua relação com o MST?
PLÍNIO:
Tenho uma relação com a reforma agrária desde os anos 60. Fui o deputado que
relatou o projeto do presidente João Goulart. A partir daí fui exilado. Quando
voltei, me pus a campo nessa luta, e o MST estava nascendo. Apoio o MST
totalmente. Celso Furtado dizia que o MST é um movimento cívico comparado ao da
abolição da escravidão. E acho mais: se não fosse o MST, nós já teríamos
guerrilha rural.
O
GLOBO: O senhor defende uma posição meio chavista em relação aos meios de
comunicação.
PLÍNIO:
Não conheço bem a posição chavista, mas numa república democrática não há
nenhuma força que se subtraia ao controle do Estado. Uma coisa é o controle do
Estado, outra é a censura. Sou contra todo e qualquer tipo de censura,
inclusive a censura que os sete grandes conglomerados de comunicação fazem aos
seus jornalistas e ao povo. Eu estou sendo censurado. Não saio nos jornais. É
raríssimo. Não sou convidado às televisões e só vou aos debates porque a lei me
favoreceu.
O
GLOBO: Mas, depois de sua participação no primeiro debate, estão convidando-o
bastante. O senhor fez sucesso.
PLÍNIO:
Agora resolveram me chamar porque eu dou Ibope (risos).
O
GLOBO: Esse senso de humor, o senhor tem sempre?
PLÍNIO:
Nasci com ele. Herdei da minha mãe, que era uma gozadora de primeira. Eu acho
que é importantíssimo isso para a vida. A pessoa não ser arrogante, não se
sentir melhor que os outros e ter coragem de levar as coisas com certa
relatividade. O humor é uma relativização.
O
GLOBO: Se fosse resumir em uma frase cada um dos seus adversários, o que diria?
PLÍNIO:
O problema do Serra é uma certa truculência no exercício da autoridade. O
problema da Dilma é uma certa impostura. Como uma pessoa que não fez política a
vida inteira e não pertence ao partido que vai elegê-la se candidata? Em
relação a Marina, é o fato de que ela, uma pessoa correta, de bem, demonstrou
ser uma pessoa carreirista. Está nisso por um programa pessoal.
O
GLOBO: O senhor reveria as privatizações, reestatizaria alguma empresa?
PLÍNIO:
Hotel de turismo em Itanhaém, não. Mas o resto, tudo: Embraer, Vale do Rio
Doce, Fábrica Nacional de Motores. O Estado precisa ter instrumentos de fazer
política econômica.
O
GLOBO: Faria a reforma tributária?
PLÍNIO:
O imposto que mais agrava o cidadão é o ICMS, que é absolutamente regressivo,
na medida em que um pobre, ao comprar um litro de leite, paga a mesma coisa que
um milionário. Outro que precisa ser aumentado é o imposto sobre grandes
fortunas. Tem de aumentar a tarifa e a progressividade. E o imposto de renda precisa
ser ajustado à lucratividade das empresas privadas.
O
GLOBO: O senhor critica bastante a especulação financeira. No entanto, tem
R$1,7 milhão investidos em ações.
PLÍNIO:
Isso é produto de uma casa que eu acabei de vender.
O
GLOBO: Mas está lá, especulando. Como é isso?
PLÍNIO:
É uma defesa normal do meu patrimônio. Eu vivo nesta sociedade. Sou contra ela,
mas vivo nela. Ando pela direita, quando guio, obedeço ao sinal de tráfego. É
uma defesa normal, absoluta. É público, notório, e o meu imposto de renda está
à disposição de quem quiser.
O
GLOBO: O Bolsa Família não ajudou?
PLÍNIO:
O problema dele é que é uma humilhação para quem pega. O Bolsa Família é um
benefício necessário para quem está numa situação de fome, mas esconde o
problema real, que é alguém passar fome. É um programa que não existiria em uma
sociedade justa.
O
GLOBO: O senhor manteria o Bolsa Família?
PLÍNIO:
Sim, enquanto a pessoa estiver esperando um trabalho, uma terra para plantar, e
tiver problemas alimentares. Daí, tem de quadruplicar, porque o que ela recebe
é insuficiente para ela se alimentar.
O
GLOBO: É a primeira vez que o presidente Lula não sai candidato, mas o senhor
acha que ele “saiu” da campanha ou está concorrendo?
PLÍNIO:
Está concorrendo a 2014. É evidente. A Dilma é um fantoche dele.
O
GLOBO: O senhor saiu do PT há cinco anos. Por quê?
PLÍNIO:
Porque o PT saiu de mim. Ele começou sendo socialista, mas se desviou e
tornou-se um partido capitalista.
O
GLOBO: O presidente Lula, há alguns dias, afirmou que o Brasil precisou de um
presidente metalúrgico socialista para se tornar um país capitalista, porque
antes não tinha capital. Ele é socialista?
PLÍNIO:
Uma vez, ele foi perguntado se era socialista e respondeu: “Sou metalúrgico.”
Ele dizia internamente, para nós (no PT), que era socialista. Mas a gente
percebe que nunca foi.
O
GLOBO: E o país hoje tem mais capital?
PLÍNIO:
O Brasil está mais pobre. A distância entre o Brasil e os países desenvolvidos
aumenta. A desindustrialização do Brasil é um fato. A desnacionalização da
economia é brutal. Não entendo como é que está mais rico. Está é mais pobre.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: O País Tamanho: 2324 palavras
Edição: 1 Página: 11
Coluna: Seção:
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