‘FACÇÃO SINDICAL OCUPOU CARGOS NA RECEITA’
Everardo Maciel, ex-secretário
da Receita, afirma que violação de sigilo é plataforma para outros crimes
A crise na Receita Federal deflagrada pela violação
de sigilos fiscais é resultado de um loteamento de cargos guiado por interesses
políticos. A crítica partiu de Everardo Maciel, que
comandou a Receita Federal nos dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, entre 1995 e 2002. Sócio de uma consultoria fiscal em Brasília, ele
diz que os problemas começaram com as indicações de sindicalistas para posições
estratégicas na gestão de Lina Vieira, que antecedeu o atual secretário
Otacílio Cartaxo. Sobre as violações constatadas, Everardo critica o ministro da Fazenda, Guido Mantega, por afirmar que a Receita sempre foi vulnerável:
“É uma maneira de encobrir o que vem sendo praticado.”
EVERARDO MACIEL diz que a desordem na Receita
começou antes da gestão do secretário Otacílio Cartaxo
Fabio
Brisolla
Qual
a sua avaliação sobre a violação do sigilo fiscal constatada dentro da Receita
Federal?
EVERARDO
MACIEL: É uma situação gravíssima. A Receita reúne informações extremamente
importantes. O vazamento não só corresponde a crime, como favorece vários
outros crimes, como roubo, calúnia e difamação. É uma plataforma para outros
crimes.
O
ministro Mantega afirmou que a Receita sempre foi
vulnerável. O senhor concorda com essa afirmação?
EVERARDO:Vulnerabilidade existe em todos os sistemas de informação de qualquer
órgão, em qualquer país que seja. Agora, é importante saber o grau de rigidez
do sistema. Dizer que o sistema da Receita é vulnerável... Não é. Ou poderia
dizer: é dos menos vulneráveis. Não significa que não pode acontecer. Mas
também essa não pode ser a justificativa para as falhas que ocorreram. Isso é
uma maneira de encobrir o que vem sendo praticado.
Qual
seria a questão central a ser observada na investigação sobre a quebra de
sigilo?
EVERARDO:
É preciso olhar o aspecto mais importante nessa história toda. O problema não é
vulnerabilidade da Receita. Essa é a ponta de um iceberg, um fragmento de uma
questão mais ampla. Evidencia a existência de uma quadrilha que estava tentando
obter informação cujas intenções eram as piores possíveis. Não estou fazendo
acusações políticas. Mas as pessoas que fizeram tinham um interesse comercial,
havia um negócio em andamento, com finalidade política.
Um
dos suspeitos, o contador Antônio Carlos Atella
Ferreira, segundo o TRE, era filiado ao PT...
EVERARDO:
Existe essa pessoa, com uma biografia esquisita... Não consigo entender como
não foi decretada prisão desse cidadão. Ele está obstruindo a Justiça e
debochando do Estado brasileiro.
A
atual administração da Receita Federal foi comprometida por causa das violações
constatadas?
EVERARDO:
O comando da Receita não pode ser responsabilizado pelo que está acontecendo.
Seria injusto. O importante neste momento é identificar os responsáveis por
essas violações. E agir de forma transparente, algo que infelizmente não vem
ocorrendo. A cada minuto há uma explicação diferente para um fato. É preciso
assumir o problema, de forma adulta.
O
senhor acha que o atual secretário da Receita, Otacílio Cartaxo,
deve ser afastado do comando da instituição?
EVERARDO:
Não. O que tem de haver é uma discussão clara. A Receita é assunto de Estado.
Não pode ser tratada como questão política. Ele não pode ser tratado como bode
expiatório nessa história. Sua nomeação foi o reconhecimento de que o modelo
estabelecido anteriormente estava errado.
O
senhor se refere à gestão de Lina Maria Vieira? A interferência política teria
começado nesse período?
EVERARDO:
Na administração anterior, cargos estratégicos foram ocupados por facção
sindical da Receita. Isso não pode nem ser chamado de aparelhamento. É um subaparelhamento. Acho que o próprio governo reconheceu que
cometeu um erro. E a indicação de Cartaxo foi uma
forma de se corrigir isso.
Lina
Vieira seria a responsável por esse aparelhamento ocorrido dentro da Receita?
EVERARDO:
A Lina foi um mero instrumento. Não saberia identificar quem no governo definiu
essa orientação.
Lina
substituiu Jorge Rachid, que, antes de ser secretário da Receita Federal, foi
seu braço direito no comando da instituição. O senhor acha que a demissão dele
foi articulada por grupos políticos?
EVERARDO:
Quando Rachid assumiu, houve uma campanha deliberada, política, pesada, que
envolveu ações difamatórias, com objetivo de retirá-lo do comando. Ele não saiu
de imediato por ter conduzido a receita de forma íntegra. Mas, em um dado momento,
ele foi derrubado de maneira sórdida. E as pessoas que entraram atendiam a essa
facção política. A consequência disso não terminou
ainda. E, por incrível que pareça, essas pessoas não desistiram de tomar o
poder. Os três candidatos do sindicato ao cargo de Secretário da Receita
integravam a administração de Lina Vieira (em agosto, o sindicato dos auditores
fiscais anunciou uma lista com três nomes para substituir Cartaxo,
que será enviada ao próximo presidente da República). Eles não desistiram.
A
crise atual na Receita estaria relacionada diretamente com essa “facção
política” que tentou assumir o comando da instituição?
EVERARDO:
O Rachid caiu em decorrência de um processo iniciado no dia em que ele tomou
posse. E resultou num desastre. A Receita caiu, a estrutura foi desorganizada.
A crise atual é consequência da politização da
Receita. A saída de Rachid foi apenas um capítulo desse enredo. Mas o episódio
atual (as violações de sigilos), lamentável, criminoso, ao menos serve para a
sociedade perceber o que estava acontecendo lá dentro.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: O País Tamanho: 884 palavras
Edição: 1 Página: 4
Coluna: Seção:
Caderno: Primeiro
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