A MÃE
IMORTAL DA MEDICINA
O drama desconhecido da mulher que abriu caminho
para uma revolução
HENRIETTA LACKS numa de suas poucas fotos: seu último desejo jamais foi
atendido
HENRIETTA E O MARIDO DAY: família foi deixada à margem da medicina
CULTURA de células HeLa
Ana
Lucia Azevedo
Em
Lançado este ano nos EUA e no Reino Unido, “The
imortal life of Henrietta Lacks” (“A vida imortal
de Henrietta Lacks”, Ed. Crown, sem previsão de lançamento no Brasil), da escritora
e médica americana Rebecca Skloot, abriu uma
discussão sobre direitos de informação de pacientes e o acesso à medicina. E
incomodou muita gente, de pesquisadores a grandes laboratórios farmacêuticos.
As células de Henrietta foram extraídas de seu tumor
sem o seu consentimento durante uma cirurgia, meses antes de sua morte. Nem ela
nem o marido Day Lacks foram informados pelo médico
George Gey de que uma parte do tumor seria usada em
pesquisa — um procedimento padrão naquela época. “Hoje, pacientes precisam dar
um consentimento geral antes de uma cirurgia, mas se amostras de células forem usadas depois em pesquisa, os médicos não precisam lhe
contar”, destacou Rebecca Skloot.
A cirurgia não salvou a vida de Henrietta, mas as
células possibilitaram alguns dos mais importantes progressos da medicina nos
últimos 60 anos. Conhecidas pelo nome de código HeLa
— das iniciais de Henrietta — elas se tornaram a
primeira linhagem imortal da história. Por muitos anos, cientistas tentaram
multiplicar células em laboratório, mas elas sempre morriam. As células de Henrietta foram as primeiras a se replicar indefinidamente.
Em termos científicos, são imortais. Ninguém sabe exatamente por que as células
HeLa se multiplicam tão bem. Uma explicação seria a
extrema agressividade do tumor que matou Henrietta.
Família nunca recebeu benefícios
Culturas celulares servem, por exemplo, para testar novos remédios, estudar como uma doença evolui, descobrir se uma droga é
segura e avaliar os efeitos da poluição no corpo humano. Permitem investigar a
ação de vírus e bactérias. Praticamente qualquer pessoa que já tenha tomado um
medicamento se beneficiou das células de Henrietta Lacks. Vacinas, quimioterapia, reprodução in vitro, mapeamento genético — tudo isso só foi possível
graças a uma jovem mãe que ganhava a vida com o cultivo do tabaco.
Cientistas já produziram mais de 50 milhões de toneladas de células de HeLa. Um pesquisador estimou que,
juntas, essas células poderiam dar pelo menos três vezes a
volta na Terra — Henrietta, um mulher lembrada como
alegre e corajosa, media cerca de
“Para a ciência médica, não há problema se você usa células de uma pessoa em
pesquisas para o bem comum. Mas a história de Henrietta
mostra que isso não é bem verdade — certamente não nos Estados Unidos. As
células dela foram empregadas no desenvolvimento de tratamentos, mas esses
mesmos tratamentos não estão ao alcance de quem não pode pagar, famílias pobres
como os Lackses”, escreveu
Rebecca. Ela acrescenta que essas mesmas células ainda enriqueceram empresas,
como bancos de células e indústrias de biotecnologia. Hoje, um tubo de HeLa custa cerca de US$260. A
família jamais viu um centavo sequer. Na verdade, tribunais americanos têm
negado qualquer direito a pessoas cujas células e órgãos tenham sido usados em
pesquisas que geraram lucros.
Rebecca conta que se interessou pela história de Henrietta
em 1988, numa aula de biologia, quando aprendeu a importância das HeLas, mas soube apenas que vinham
de uma mulher negra que morrera de câncer. Não se satisfez e dedicou mais de 20
anos a pesquisar a vida da dona daquelas células. Entrevistou centenas de
pessoas, ficou amiga da família e escreveu um livro para humanizar a ciência.
Qualquer estudante de biologia ou medicina sabe o que são HeLas, mas pouca gente conhecia a história da mulher
de onde vieram.
“Cientistas
não gostam de pensar nas HeLas
como pequenos fragmentos de Henrietta porque é muito
mais fácil fazer ciência quando você dissocia suas amostras das pessoas das
quais elas vieram”, afirmou à Rebecca um pesquisador chamado Robert Stevenson.
Henrietta se despediu do marido com o pedido de que
cuidasse das crianças. Day Lacks tentou, mas com um
salário miserável de operário negro na Virgínia dos anos 50 (US$0,80 a hora)
não conseguiu evitar que a filha mais velha Elsie
morresse pouco depois da mãe, internada no Hospital for the
Negro Insane. A filha Deborah se tornou mãe
adolescente e depois contraiu artrite, osteoporose, surdez nervosa e depressão.
Outro filho, Sonny, tinha problemas cardíacos. O
próprio Day teve os pulmões destruído pelo trabalho com amianto e morreu, em
2002, com câncer de próstata. Em seu livro, Rebecca conta que a família Lacks, extremamente religiosa, acredita que, de alguma
forma, o espírito de sua mãe continua entre nós, em cada uma das células HeLa espalhadas pelo mundo.
Para Rebecca, a maior lição da história de Henrietta,
numa época em que a indústria médica se tornou um negócio bilionário e genes
podem ser patenteados, é discutir o direito sobre o nosso próprio corpo e os
limites e deveres da medicina.
Jornal: O GLOBO
Autor:
Editoria: Ciência
Tamanho: 1010 palavras
Edição: 1
Página: 34
Coluna:
Seção:
Caderno: Primeiro
Caderno
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